quarta-feira, 22 de abril de 2026

sepultura

Eu morri
Cavei minha própria sepultura 
Fiz dela o lugar onde habituei
Séculos em anos

A minha sepultura tinha cama, colchão 
A escuridão de um lugar pra dormir
E até um abajur ao lado da cama
Volta e meia alguma luz fazia

A minha sepultura estava ricamente adornada com as percepções dos outros
Sobre mim
Sobre a vida
Sobre a morte 
Sobre os processos
Sobre o que tem ou não validade de existência 

Sobre aquilo que pode ou não pode ser chamado de realidade 
Deixei que a sepultura me mostrasse o que era vivo e o que não era 
Porque o que não era não sairia de lá comigo 
E o que era teria força suficiente para fazer o movimento de explodir essa estrutura 

Se até então havia dúvidas dentro de mim sobre o que isso é, sobre o que eu vim fazer, sobre o que eu realmente vim perceber e reconhecer, agora não posso dizer a mesma coisa 

Agora, explodidas as paredes que mantinham essa sepultura viva, e eu dentro dela, só posso dizer que o que sobra, o que resta, é a real luz daquilo que eu vim buscar, daquilo que eu vim aprender, daquilo que eu vim ser, e daquilo que eu vim, antes de tudo, sustentar 

Porque mais do que aprender, ser, olhar, reconhecer, é preciso aprender a ser a sustentação que reconhece a verdade, mesmo quando está todo mundo desqualificando-a. Que reconhece o que está ali, que reconhece a informação que te é dada, mesmo quando tão confusa, sob tantas vestes, sob tantas perspectivas, sob tantas irrealidades alheias. 

É preciso muita força de ser para que a gente sustente o que a gente verdadeiramente é 

E é essa força de ser que me renasce hoje. 

Hoje eu não posso dizer simplesmente que eu renasci. 
Hoje eu só posso dizer que essa força me renasceu, essa força de ser exatamente o que eu sou, essa força de ser exatamente o que eu vim ser, essa força de olhar, ver, reconhecer e mais do que tudo sustentar. Porque sustentar não é um bailinho ao vento, sustentar é uma estrutura que permanece.

Sustentar uma estrutura que se faz, sustentar a uma estrutura que se banca. 

E se eu tinha alguma dúvida se eu podia ou não me bancar pelo que eu percebo, pelo que eu reconheço, pela informação que eu sou, agora essa força me renasce das minhas próprias cinzas para dizer e aí, o que morreu? O que nasce? O que renasce dessas cinzas? Esse é o seu lugar. 

Não mais como o resto da organicidade em putrefação no seu espírito, no seu estado de decomposição da matéria anterior que te formava. Mas agora o que nasce daqui nasce pronto, nasce num outro lugar, nasce numa outra oitava. Nasce num outro lugar de sustentação daquilo que você verdadeiramente é 

E aí? Frente a isso, o que você faz? 
 






Nenhum comentário:

Postar um comentário