esparramo
liquido o que conheço
me gotejo no amor que eu nunca fui
corpos que nunca habitei
línguas que desconheço
abro o amor como uma champagne
e na força de seu estalido
dispo-me do que sei
para - nua - atravessar
a fronteira que nos separa
esconderijo-público
As fomes me atravessam
A fome de amor
A fome da dor que esteve aqui
A fome do porvir
que já parece estar
Vivi a vida como uma negociante
No comércio de dores e fomes
Escambeei a vida
Deixei a alma aburguesar
No delírio infantil do controle
Como quem guarda em seu estoque
Os potes, os vidros, de(vida)mente organizados, etiquetados, uniformizados
contendo, ordenadamente, minhas formas
Bombardeio minha própria ordem e, admirada, vejo enquanto os cacos e vidros e tampas se desabam rompendo os limites do que outrora fora eu.
Na fumaça da explosão, um corpo faminto
Um monstro, com cabeça de onça, pata de elefante e garras de jacaré a atacar memórias, abusos, amores e tudo que em mim ainda pulsa
sem saber direito o amor e a morte se tornam amantes
rodopiantes na noite escura
até que a última garra se d e s f a ç a
com o último suspiro do que um dia fomos
Somente a poeira testemunha
O abafar e a minha história
os cacos cortam
cuidado onde pisa
o que acha que encontra pode ser
a próxima explosão
Amontoado de órgãos e pêlos,
pele e sangue,
vias rápidas e lentas que me levam até você
Um passo adiante e todos os órgãos travam
como o jumento que se nega a ir adiante
E na força da brusca parada se batem uns nos outros
e estatelam dentro de mim, esparramados
Tentam voltar ao lugar e à ordem mas eles também já não a entendem
e o pulmão escorre pelas pernas
o coração insiste em tomar o lugar da cabeça
o estômago brigando que o novo peito tem ele sim
De repente os olhos te vêem passar
e todos os órgãos, se batendo por dentro, tentam encontrar a forma de darmos qualquer passo
caímos, no desengoçar do próprio infinito
As vísceras saudando o amor
sem perceber que será ele a penetrar tudo com a ordem de despejo da lógica em mãos