quinta-feira, 11 de setembro de 2025
terça-feira, 9 de setembro de 2025
meu corpo conversa com o seu
como estrela, como poeira, como pó
sopra o vento do que outrora foi
t e m p o
desanda
desorganiza
destiquetaqueia
na espera entre dois
nasce um mundo
nasce o gozo
nasce a flor
e toda cor que num passado foi
pó
e do pó se fez
pedra sobre pedra
o altar onde edifiquei meus sonhos
sonhei meus cantos
vivi o corpo como quem batiza
saudando a vida
que seja, antes de tudo, viva
A travessia
há olhos que têm em si
a flecha que atravessa
adentram meus olhos, surpresos
descendo pela cachoeira da alma
se banham no oceano de mim
e quando os busco, toalhas em mãos,
pedindo que por favor se vão,
se riem, nadando-me
ferozes batedores de braços e pernas e mãos e peitos e bocas e nus
- porque no oceano de mim só se entra nua -
dilaceram meu pudor
sentei-me então à beira da praia
contemplando a poesia
num mergulho e solto as vestes
- que me prendem -
e sorrio, nua, nosso encontro
domingo, 7 de setembro de 2025
As fomes me atravessam
A fome de amor
A fome da dor que esteve aqui
A fome do porvir
que já parece estar
Vivi a vida como uma negociante
No comércio de dores e fomes
Escambeei a vida
Deixei a alma aburguesar
No delírio infantil do controle
Como quem guarda em seu estoque
Os potes, os vidros, de(vida)mente organizados, etiquetados, uniformizados
contendo, ordenadamente, minhas formas
Bombardeio minha própria ordem e, admirada, vejo enquanto os cacos e vidros e tampas se desabam rompendo os limites do que outrora fora eu.
Na fumaça da explosão, um corpo faminto
Um monstro, com cabeça de onça, pata de elefante e garras de jacaré a atacar memórias, abusos, amores e tudo que em mim ainda pulsa
sem saber direito o amor e a morte se tornam amantes
rodopiantes na noite escura
até que a última garra se d e s f a ç a
com o último suspiro do que um dia fomos
Somente a poeira testemunha
O abafar e a minha história
os cacos cortam
cuidado onde pisa
o que acha que encontra pode ser
a próxima explosão
o corpo
Amontoado de órgãos e pêlos,
pele e sangue,
vias rápidas e lentas que me levam até você
Um passo adiante e todos os órgãos travam
como o jumento que se nega a ir adiante
E na força da brusca parada se batem uns nos outros
e estatelam dentro de mim, esparramados
Tentam voltar ao lugar e à ordem mas eles também já não a entendem
e o pulmão escorre pelas pernas
o coração insiste em tomar o lugar da cabeça
o estômago brigando que o novo peito tem ele sim
De repente os olhos te vêem passar
e todos os órgãos, se batendo por dentro, tentam encontrar a forma de darmos qualquer passo
caímos, no desengoçar do próprio infinito
As vísceras saudando o amor
sem perceber que será ele a penetrar tudo com a ordem de despejo da lógica em mãos
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
sábado, 10 de agosto de 2013
Preta Velha D'Oxum
Minha preta quando vem
Arrebata meu coração
Aperta-o, com saudades
É, de longe, uma intenção
que conheço desconhecendo
Minha preta quando vem
restaura noites de melancolia
noites em que o papel e a caneta
foram fiéis escudeiros
conselheiros na longa escuridão
Minha preta quando vem
reluz em mim a humanidade
e me resgata do fundo
de onde já nem queria ir
Minha preta quando vem
se achega em mim num afago
dos meus faz seus braços
me envolvendo em seu amor
À preta só tenho a dizer
obrigada por ser minha preta
obrigada por ser meu consolo
(mesmo quando ainda não o compreendia)
obrigada
por ser
Adauê sa la nauê
Espelho
Inexplicável
É o mistério da noite
e o véu do tempo
a cobrir tudo aquilo
que - ainda - não podemos ver
Há coisas que nunca serão
explicadas
Não há razão
que alcance
o sentido último
que o coração viveu
A mente, limitada
é incapaz de descontrolar-se
o suficiente para que nada
faça sentido
- e que sentido há nessa busca
de propósito e concretude a cada esquina? -
Aos aventureiros que pretendem
aqui ingressar
aviso: acostume-se
a desligar a chave da razão
Inunde-se
sinta, veja
com olhos
de amor
terça-feira, 7 de maio de 2013
terça-feira, 5 de junho de 2012
Gente grande
o lugar perdido da infância
a inocência em que via o mundo
e cria, sem dó
em sua beleza inabalável
quero ouvir em mim
o lugar do canto e do afago
e a força e a coragem
de não ser uma muralha cinza
não se perder na chatice da razão
e permitir que haja menos
não
quero achar dentro de mim
o ser que ama, vorazmente
ainda que possa encontrá-lo mais paciente
ou quem sabe afobado
virá encontrar-me à porta
e dizer: entra! depressa!
quase chega sem o tempo
de pelo menos despedir-se!
o mundo é ilusão
corrói a beleza em nossos olhos
e ensina que a isso nomeamos
amadurecer
diria eu, no entanto
a-cin-podrecer
.
Se é em nós que ela está
(e só lá ela pode existir)
Porque diabos ela continua?
Se já ordenei ao coraçaõ
à mente (in)sana
ao(s) corpo(s) são
Afinal de contas, defina-se!
Você mora em mim
ou eu em você?
em formas redondas,
Semelhantes,
e principalmente,
harmônicas
Hoje,
hoje a beleza tá na vida
na vida como ela é,
errada,
escura,
às vezes.
Sem nenhuma perfeição
um traço torto
que traduz humanidade
Hoje a beleza saiu,
passeou pelo mundo,
e descansou nos seus lábios
finos,
tortos,
e lindos.
Que liberdade existe em sentir-se culpado por não gozar os prazeres da libertação?
a culpa nos acompanha onde vamos
no banheiro
no quarto
nas ruas
no vazio
preenche-nos com sua inestimável presença
sufoca-nos com sua agradável irrompidão
A emoção é a não opinião. É sentir antes de pensar e estar liberado para que o mundo possa se derreter em sua frente e sua crença no derretimento não titubear.
Solta-se um fio dentro de mim, que ainda terá um grande novelo a desembolar até que eu possa descompreender, desmortificar, desracionalizar.
a culpa por viver só vem da razão.


