sábado, 13 de setembro de 2025

 A mãe que domina

A mãe que arrasa

A mãe que sargenteia

todas elas devidamente encarceiradas. 


Agora a única maternidade é a doce

A que fala com voz de anjo

A que antes de explodir pelas emoções que tem lidou com cada uma delas e não descontou nada 

no filho

no (ex) marido

na pulga da cachorra

no céu ou nas montanhas


A mãe de hoje é serena

Tradwives a fazer pão às 05h da manhã para que seu amo, digo, seu macho, digo, seu homem, digo, seu tutor, digo..

possa acordar com o cheiro quente que é seu desejo


Infinitos tutoriais

Como reconhecer os traumas da criança

Onde você está errando - e você está, pra sempre, errando... digo, errada... digo, não errante. digo..

todos ensinando a submeter

submeter a raiva, a opressão, o status quo, o que traria a sagrada necessidade de explodir a estrutura

para que haja paz

(que bonitinha)

(menininha da mamãe)


se a raiva não educa

então o mundo não muda

se ela não puder sentar à mesa e comer, junto a meus filhos

então que se virem as mesas, as cadeiras, os pratos e os copos e a comida voe pelos ares 


quinta-feira, 11 de setembro de 2025

na minha pele flor, vísceras, sangue, destino
a incontrolabilidade da vida que ameaça a expulsão de toda lógica, de toda sentença, de toda certeza
para que, suspensa, só a vida pulse
me sinto um cavalo selvagem
correndo sem saber minha direção 
desejando antes de tudo 

a       s  e  l  v  a  g  e  r  I  a

não limitar
explodir em desejo
desobedecer
desorganizar

a única educação que recebi foi a dos moldes
só a selvageria me devolve
vórtice, vulcão, lava, tempestade incontrolável 
que a tudo inunda e nunca pede licença 
brota em toda parte
emana em todo lugar
faz o limite rir-se
ele mesmo imerso no gozo incontrolável da vida -
poder obscuro da eternidade 
a beleza tem me chegado devagar
cada passo em direção a ela
é sentido na espinha dorsal
a beleza rasga os véus
dilacera as separações 
emana sem controle o curso da vida, que extrapola, deslimita, abre

a beleza é, em si, o perigo
depois dela não se sabe
derrete-se
como o metal ao fogo
forja-se algo que antes não havia

a gente nunca sabe a forma na qual nos derramamos depois
até ser novamente
derretido

a beleza chama
goteja 
incendeia
guia
Hoje a dor da maternidade me atravessou

Uma das coisas que percebo que aconteceu ao me tornar mãe foi uma explosão dos meus sentidos. O que eu percebia foi catapultado milhares de vezes por um corpo que brotou de gestar, parir, amamentar, cuidar

Um outro universo de cores, sensações, impressões começou a ser uma verdade que de tão enorme se torna doída nas camadas da minha pele e da carne

Atravessar essas camadas em meus próprios portais internos e não ter qualquer escuta da enormidade de ser mãe 

Mãe rasga. Mãe atravessa. Mas é travessia necessária da vida. Não se passa por isso sem rasgar a si, sem burlar a si, seu corpo, seu tom, sua forma

Onde está a mulher que existia antes?

Ela nunca mais estará 

Nos sentidos catapultados, na fome da vida que se multiplica, na beleza desesperada que dói

Em nenhum deles encontro mais o meu olhar

Descondicionar é parte do processo de voltar a mim
(Insuficiente, eu diria)

Mas já meu corpo é agora a realidade persistente da explosão do sentir, do perceber, do receber, do entregar

Agora eu escorro... não sei mais o que contenho

Todas as memórias me são evocáveis. 

Todas as dores realizáveis 

Meu corpo agora, olho d'água, brota a vida e a oferece de novo à existência 

Despejar a vida na vida

Ninguém me contou que exigia tanta coragem. 

Ninguém me contou o cansaço de seguir sendo nascente que não esgota e sempre, mais um pouco, entrega

terça-feira, 9 de setembro de 2025

 meu corpo conversa com o seu

como estrela, como poeira, como pó

sopra o vento do que outrora foi

t e m p o


desanda

desorganiza

destiquetaqueia


na espera entre dois

nasce um mundo

nasce o gozo

nasce a flor

e toda cor que num passado foi


e do pó se fez

pedra sobre pedra

o altar onde edifiquei meus sonhos

sonhei meus cantos

vivi o corpo como quem batiza

saudando a vida


que seja, antes de tudo, viva

A travessia

 há olhos que têm em si

a flecha que atravessa

adentram meus olhos, surpresos

descendo pela cachoeira da alma

se banham no oceano de mim


e quando os busco, toalhas em mãos,

pedindo que por favor se vão,

se riem, nadando-me

ferozes batedores de braços e pernas e mãos e peitos e bocas e nus

- porque no oceano de mim só se entra nua - 

dilaceram meu pudor


sentei-me então à beira da praia

contemplando a poesia

num mergulho e solto as vestes 

- que me prendem -

e sorrio, nua, nosso encontro

domingo, 7 de setembro de 2025

 esparramo

liquido o que conheço

me gotejo no amor que eu nunca fui


corpos que nunca habitei

línguas que desconheço


abro o amor como uma champagne

e na força de seu estalido

dispo-me do que sei

para - nua - atravessar

a fronteira que nos separa

 As fomes me atravessam

A fome de amor

A fome da dor que esteve aqui

A fome do porvir

                 que já parece estar


Vivi a vida como uma negociante

No comércio de dores e fomes

Escambeei a vida

Deixei a alma aburguesar 

No delírio infantil do controle


Como quem guarda em seu estoque

Os potes, os vidros, de(vida)mente organizados, etiquetados, uniformizados

contendo, ordenadamente, minhas formas


Bombardeio minha própria ordem e, admirada, vejo enquanto os cacos e vidros e tampas se desabam rompendo os limites do que outrora fora eu.


Na fumaça da explosão, um corpo faminto

Um monstro, com cabeça de onça, pata de elefante e garras de jacaré a atacar memórias, abusos, amores e tudo que em mim ainda pulsa 

sem saber direito o amor e a morte se tornam amantes 

                                                                         rodopiantes na noite escura

até que a última garra se     d e s f a ç a

com o último suspiro do que um dia fomos


Somente a poeira testemunha

O abafar e a minha história

os cacos cortam


cuidado onde pisa

o que acha que encontra pode ser

a próxima explosão

o corpo

Amontoado de órgãos e pêlos, 

pele e sangue, 

vias rápidas e lentas que me levam até você


Um passo adiante e todos os órgãos travam

como o jumento que se nega a ir adiante

E na força da brusca parada se batem uns nos outros

e estatelam dentro de mim, esparramados


Tentam voltar ao lugar e à ordem mas eles também já não a entendem

e o pulmão escorre pelas pernas

o coração insiste em tomar o lugar da cabeça

o estômago brigando que o novo peito tem ele sim


De repente os olhos te vêem passar

e todos os órgãos, se batendo por dentro, tentam encontrar a forma de darmos qualquer passo

caímos, no desengoçar do próprio infinito


As vísceras saudando o amor

sem perceber que será ele a penetrar tudo com a ordem de despejo da lógica em mãos

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

sábado, 10 de agosto de 2013

Preta Velha D'Oxum

Minha preta quando vem
Arrebata meu coração
Aperta-o, com saudades
É, de longe, uma intenção
que conheço desconhecendo

Minha preta quando vem
restaura noites de melancolia
noites em que o papel e a caneta
foram fiéis escudeiros
conselheiros na longa escuridão

Minha preta quando vem
reluz em mim a humanidade
e me resgata do fundo
de onde já nem queria ir

Minha preta quando vem
se achega em mim num afago
dos meus faz seus braços
me envolvendo em seu amor

À preta só tenho a dizer
obrigada por ser minha preta
obrigada por ser meu consolo
(mesmo quando ainda não o compreendia)
obrigada
por ser

Adauê sa la nauê

Espelho

Inexplicável
É o mistério da noite
e o véu do tempo
a cobrir tudo aquilo
que - ainda - não podemos ver

Há coisas que nunca serão
explicadas
Não há razão
que alcance
o sentido último
que o coração viveu

A mente, limitada
é incapaz de descontrolar-se
o suficiente para que nada
faça sentido

- e que sentido há nessa busca
de propósito e concretude a cada esquina? -

Aos aventureiros que pretendem
aqui ingressar
aviso: acostume-se
a desligar a chave da razão
Inunde-se
sinta, veja

com olhos
de amor

terça-feira, 7 de maio de 2013

terça-feira, 5 de junho de 2012

Gente grande

quero redescobrir em mim
o lugar perdido da infância
a inocência em que via o mundo
e cria, sem dó
em sua beleza inabalável

quero ouvir em mim
o lugar do canto e do afago
e a força e a coragem
de não ser uma muralha cinza
não se perder na chatice da razão
e permitir que haja menos
não

quero achar dentro de mim
o ser que ama, vorazmente
ainda que possa encontrá-lo mais paciente

ou quem sabe afobado
virá encontrar-me à porta
e dizer: entra! depressa!
quase chega sem o tempo
de pelo menos despedir-se!

o mundo é ilusão
corrói a beleza em nossos olhos
e ensina que a isso nomeamos
amadurecer

diria eu, no entanto
a-cin-podrecer
onde foi parar tanta gana
tanta fome
e tanta pressa

em que tapetes esconderam meus pedaços

por onde soprarei de volta ao mundo
o pó que me compõe e se joga ao mundo
o vermelho que me acompanha em tristes caminhadas

tristes, como toda verdade
pulsante de eternidade

.

Que diabos, afinal, é isto que chamamos solidão?
Se é em nós que ela está
(e só lá ela pode existir)
Porque diabos ela continua?
Se já ordenei ao coraçaõ
à mente (in)sana
ao(s) corpo(s) são

Afinal de contas, defina-se!
Você mora em mim
ou eu em você?
Se por cinco minutos
o medo deixasse de existir
e dele estivesse o mundo livre

o que aconteceria contigo?
o que aconteceria comigo?

onde está o princípio de tudo?
A coragem das pequenas coragens?

como a de dizer:
eu te amo!
Escrevo porque preciso
me pinto de eus
de diversas cores
sabores
me fantasio em atriz da vida real
para pintar é preciso estar nua